Homens infantilizados e a busca inconsciente por uma mãe disfarçada de parceira
O discurso é maduro, possuem visão e citam liderança emocional.
Mas, na intimidade, revelam outra dinâmica.
Desejam amor, mas evitam confronto, exigem admiração, uma
parceira que adivinhe suas vontades, mas rejeitam emparelhamento. Deseja, uma
mulher, mas inconscientemente, procuram uma mãe. Não a mãe lateral, mas a
função psíquica materna: acolhimento incondicional, validação constante,
ausência de crítica estruturante e sem troca.
E quando encontram uma mulher inteira, com opinião, limites,
identidade própria, algo dentro deles se desorganiza.
A idealização e a queda
O roteiro costuma começar com encantamento cm a mulher sendo
admirada pela autenticidade, por sua firmeza e intensidade. Afinal, pessoas
verdadeiras são intensas, como um trem que segue sua viagem constante e lúcida.
A percepção é de uma mulher diferenciada, rara e forte, e,
passado o brilho inicial, surge o movimento sutil de dominação e correção. A
intensidade vira exagero, a firmeza vira agressividade e a opinião,
brutalidade.
Esse deslocamento não é casual. Ele revela um mecanismo psíquico
clássico: a dificuldade de sustentar a alteridade, isto é, de lidar com o outro
como sujeito independente, não como extensão de si, de seu ego.
Enquanto a mulher como uma projeção idealizada, ela é
desejada, quando passa a ser real, ela se torna incômoda, e esse incômodo
precisa ser deslocado. Então, ela se transforma em problema.
Próximo passo: a crítica pedagógica como instrumento de
controle
Existe um traço recorrente nesse perfil: a crítica em tom
pedagógico em tom de “comando”. Eles não sabem dizer “não gostei”, eles dizem “você
precisa aprender”. Não falam que algo incomodou, mas sim “você já melhorou
muito”.
A linguagem parece suave, mas é hierárquica, e estabelece
uma assimetria emocional, onde ele ocupa o lugar de quem orienta e ela, na
posição de quem precisa evoluir. Não se trata de um diálogo linear, mas sim de
um ajuste de comportamento.
Esse padrão, não necessariamente configura um transtorno
clinico grave, mas carrega o peso de traços narcísicos sutis, como a
necessidade de superioridade moral, dificuldade em reconhecer falhas, inversões
de responsabilidade, validação intermitente e a constante desqualificação da
parceira em prol de alimentar o ego infantil machucado. A dificuldade não é
discordar, mas sim, a incapacidade de sustentar uma relação de aprendizado entre
iguais.
O narcisismo cotidiano
Atualmente, o narcisismo não necessariamente é grandioso ou
caricatural, mas pode ser sofisticado e até sedutor, repleto de nuances
travestidas de cuidado, facilmente reconhecidas em homens meninos. Eles centralizam narrativas, falam
apenas de si, do que almejam, projetam e como gostam das coisas, tendendo a reconhecer
qualquer desconforto com uma falha no comportamento da parceira, afirmando
buscar leveza enquanto provoca tensão.
Eles não se percebem como controladores, mas acreditam ser
alguém incompreendido pela “intensidade feminina”, optando pelo insolúvel drama
infantil, reagindo com lamentações de culpa teatral.
O que desestabiliza esse tipo de personalidade, não é a
intensidade da mulher, mas sim, o fato dela não o orbitar, o que ameaça o
menino interno.
Um homem maduro ama a diferença. Ele não s sente diminuído pela
autonomia da parceira, já o homem-menino precisa copiosamente que o outro
confirme a sua identidade, precisa ser admirado sem ser confrontado, ser
validado sem ser questionado. Não existe leveza, não existe o descobrimento
gradual da personalidade do parceiro, seus gostos, preferencias, reações.
Existem apenas julgamentos galgados por sua percepção pueril de idealização.
Uma mulher astuta, facilmente se encaixará nesse estereotipo
engessado, ela não aceita ser moldada sem argumentos concretos, e quando ela
responde com consciência, ele interpreta como ataque, como uma criança, que
ainda não atingiu a maturidade ideal ao descobrir que o mundo é muito mais do
que sua mente limitada ainda em formação.
No fundo, não está lidando com ela, está lidando com sua
própria insegurança primária, e insegurança infantil costuma se defender com
controle.
Por que acabam sozinhos?
Pessoas assim, não ficam sozinhas por falta de mulheres
interessantes, mas por incapacidade de suster mulheres reais. Mulheres reais
possuem limites, discordam, questionam e não pedem licença para existir. Elas
escolhem.
Quem ainda busca uma mãe emocional, alguém que acolha em
confrontar, não está preparado para uma parceira no sentido literal, entre
iguais. Relacionamento não é campo de adestramento, muito menos um projeto de
reeducação, não é sobre moldar personalidade.
Relacionamento é sobre sustentar o incrível desconforto inevitável
entre duas subjetividades, e isso exige maturidade psíquica, ego estruturado,
capacidade de reconhecer erro e capacidade de ouvir sem hierarquizar. E isso,
não se compra com flores, presentes, discursos ou intensidade performática.
Amor não é um cabo de guerra imaginário, amor é saudável, brando.
Amor é diálogo, escuta e curiosidade genuína pelo universo do outro. Quem
procura mãe corrige, quem procura uma parceira, reconhece, e essa é a diferença
fundamental entre homens maduros e homens que apenas envelhecem.
E parafraseando Leoni, muitos “garotos perto de uma mulher,
são só garotos”.
Aquele abraço.
























