segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026


 

Homens infantilizados e a busca inconsciente por uma mãe disfarçada de parceira

 

 Existe um fenômeno nas relações atuais que raramente é nomeado com clareza: homens adultos, socialmente funcionais e muitas vezes bem-sucedidos, que emocionalmente ainda operam a partir de estruturas infantis.

O discurso é maduro, possuem visão e citam liderança emocional. Mas, na intimidade, revelam outra dinâmica.

Desejam amor, mas evitam confronto, exigem admiração, uma parceira que adivinhe suas vontades, mas rejeitam emparelhamento. Deseja, uma mulher, mas inconscientemente, procuram uma mãe. Não a mãe lateral, mas a função psíquica materna: acolhimento incondicional, validação constante, ausência de crítica estruturante e sem troca.

E quando encontram uma mulher inteira, com opinião, limites, identidade própria, algo dentro deles se desorganiza.

 

A idealização e a queda

 

O roteiro costuma começar com encantamento cm a mulher sendo admirada pela autenticidade, por sua firmeza e intensidade. Afinal, pessoas verdadeiras são intensas, como um trem que segue sua viagem constante e lúcida.

A percepção é de uma mulher diferenciada, rara e forte, e, passado o brilho inicial, surge o movimento sutil de dominação e correção. A intensidade vira exagero, a firmeza vira agressividade e a opinião, brutalidade.

Esse deslocamento não é casual. Ele revela um mecanismo psíquico clássico: a dificuldade de sustentar a alteridade, isto é, de lidar com o outro como sujeito independente, não como extensão de si, de seu ego.

Enquanto a mulher como uma projeção idealizada, ela é desejada, quando passa a ser real, ela se torna incômoda, e esse incômodo precisa ser deslocado. Então, ela se transforma em problema.

 

Próximo passo: a crítica pedagógica como instrumento de controle

 

Existe um traço recorrente nesse perfil: a crítica em tom pedagógico em tom de “comando”. Eles não sabem dizer “não gostei”, eles dizem “você precisa aprender”. Não falam que algo incomodou, mas sim “você já melhorou muito”.

A linguagem parece suave, mas é hierárquica, e estabelece uma assimetria emocional, onde ele ocupa o lugar de quem orienta e ela, na posição de quem precisa evoluir. Não se trata de um diálogo linear, mas sim de um ajuste de comportamento.

Esse padrão, não necessariamente configura um transtorno clinico grave, mas carrega o peso de traços narcísicos sutis, como a necessidade de superioridade moral, dificuldade em reconhecer falhas, inversões de responsabilidade, validação intermitente e a constante desqualificação da parceira em prol de alimentar o ego infantil machucado. A dificuldade não é discordar, mas sim, a incapacidade de sustentar uma relação de aprendizado entre iguais.

 

O narcisismo cotidiano

 

Atualmente, o narcisismo não necessariamente é grandioso ou caricatural, mas pode ser sofisticado e até sedutor, repleto de nuances travestidas de cuidado, facilmente reconhecidas em homens meninos. Eles centralizam narrativas, falam apenas de si, do que almejam, projetam e como gostam das coisas, tendendo a reconhecer qualquer desconforto com uma falha no comportamento da parceira, afirmando buscar leveza enquanto provoca tensão.

Eles não se percebem como controladores, mas acreditam ser alguém incompreendido pela “intensidade feminina”, optando pelo insolúvel drama infantil, reagindo com lamentações de culpa teatral.

O que desestabiliza esse tipo de personalidade, não é a intensidade da mulher, mas sim, o fato dela não o orbitar, o que ameaça o menino interno.

Um homem maduro ama a diferença. Ele não s sente diminuído pela autonomia da parceira, já o homem-menino precisa copiosamente que o outro confirme a sua identidade, precisa ser admirado sem ser confrontado, ser validado sem ser questionado. Não existe leveza, não existe o descobrimento gradual da personalidade do parceiro, seus gostos, preferencias, reações. Existem apenas julgamentos galgados por sua percepção pueril de idealização.

Uma mulher astuta, facilmente se encaixará nesse estereotipo engessado, ela não aceita ser moldada sem argumentos concretos, e quando ela responde com consciência, ele interpreta como ataque, como uma criança, que ainda não atingiu a maturidade ideal ao descobrir que o mundo é muito mais do que sua mente limitada ainda em formação.

No fundo, não está lidando com ela, está lidando com sua própria insegurança primária, e insegurança infantil costuma se defender com controle.

 

Por que acabam sozinhos?

 

Pessoas assim, não ficam sozinhas por falta de mulheres interessantes, mas por incapacidade de suster mulheres reais. Mulheres reais possuem limites, discordam, questionam e não pedem licença para existir. Elas escolhem.

Quem ainda busca uma mãe emocional, alguém que acolha em confrontar, não está preparado para uma parceira no sentido literal, entre iguais. Relacionamento não é campo de adestramento, muito menos um projeto de reeducação, não é sobre moldar personalidade.

Relacionamento é sobre sustentar o incrível desconforto inevitável entre duas subjetividades, e isso exige maturidade psíquica, ego estruturado, capacidade de reconhecer erro e capacidade de ouvir sem hierarquizar. E isso, não se compra com flores, presentes, discursos ou intensidade performática.

Amor não é um cabo de guerra imaginário, amor é saudável, brando. Amor é diálogo, escuta e curiosidade genuína pelo universo do outro. Quem procura mãe corrige, quem procura uma parceira, reconhece, e essa é a diferença fundamental entre homens maduros e homens que apenas envelhecem.

 

E parafraseando Leoni, muitos “garotos perto de uma mulher, são só garotos”.

 

Aquele abraço.

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